Em 26/05/2018

 

O combustível da insatisfação e um incêndio a consumir todos nós

 



          O combustível que levou milhões às ruas em 2013 contra o governo Dilma é o mesmo que agora, bem mais agravado, alimenta a paralisia das estradas contra a gestão Temer, deixando o país no buraco. Mais do que os centavos de aumento nas passagens urbanas naquele tempo e dos muitos centavos a mais no preço do diesel agora, o que move toda essa profunda insatisfação popular é a completa falta de rumo deste país nos últimos temos: entre os buracos da corrupção, as vias dolorosas da falta de trabalho e do baixo poder aquisitivo de quem está trabalhando, a carga pesada dos impostos e o fim do caminho para os serviços públicos, notadamente a saúde e a segurança, parece não haver saida: não há quem aguente mais e essa brutalização das massas pelos seus próprios governos é um risco à cidadania e à civilidade.

            A exemplo do que ocorreu em 2013, o movimento agora não tem bandeira partidária nem sindical, há uma negação das instituições. O povo, no caso agora os caminhoneiros, pipeiros, motoristas de vans, organizam-se espontaneamente e conquistam a solidariedade popular ao longo das estradas. O problema é que este tipo de movimento, sem comando e sem controle, guiado apenas pelos áudios de whatsapp de muitos líderes, mas, ao mesmo tempo, sem lideranças, tendem ao radicalismo, e essa ultrapassagem de limites é um perigo para todos e à própria legalidade democrática. Agora mesmo o país está completamente desabastecido: de banana a insumos hospitalares, tudo falta. O governo assinou um compromisso de reduzir e congelar o diesel, mas não tem conseguido desmobilizar a greve e o bloqueio: mesmo depois da ameaça de usar a força para a desobstrução das rodovias e apropriação das cargas paradas. E mesmo que consiga agora, o prejuízo já está consumado, afetando a economia e a própria arrecadação fiscal em bilhões de reais. No final das contas, o povo é que paga tudo e por tudo.

            Esse novo modelo de mobilização popular, engendrado e mantido pelas redes socais, é um fenômeno da contemporaneidade. Esses tempos de internet ainda não foram bem compreendidos pelos governos nem pelas ciências sociais, mas, no cotidiano, profundas mudanças e revoluções ocorrem. A Primavera Árabe, que destituiu governos no Oriente, e a Ocupação de Wall Street (coração financeiro americano), movimento contra a corrupção política, a ganancia dos grandes grupos financeiros e as desigualdades sociais, são exemplo recentes da mobilização espontânea da sociedade. Mas, além dessas grandes mobilizações coletivas, há as inquietudes populares individualizadas diariamente nas redes: agora cada um tem a condição de mostrar sua revolta com algum governo e ser compartilhado. De um gera alguns e, em pouco tempo, tudo isso é materializado desde pequenos protestos de rua até grandes revoluções nacionais.

            O problema é que, com a tendência de radicalização desses movimentos, a reação dos governos também é de intolerância sob o argumento de que precisa manter a legalidade e a ordem. Nesse fogo cruzado, a população, que já é a grande vitima de tudo, torna-se vítima mais uma vez. Hoje é preciso que os caminhoneiros, que conquistaram um compromisso do governo, deem uma trégua no movimento para não perderam o que têm de mais importante, que é o apoio popular. Essa intolerância e intransigência, diante de um país à beira de um caos, não os levarão a nada ou pior: o povo pode começar a dar razão a esse governo, apesar de tão contestado.

            O fato é que o problema dos combustíveis no Brasil, apesar de explodir agora, tem parte de suas raízes nos governos anteriores. Hoje mais de uma centena de pessoas está condenada e algumas das quais presas por furto à Petrobrás, além da irresponsabilidade de gestões passadas de manter preços dos combustíveis baixos artificialmente, ou seja, arcando com custos elevados de importação e vendendo barato, tudo para alimentar a boa popularidade de governos e partidos, mas há custo de um prejuízo grande aos cofres públicos. O lixo sob o tapete de tantos anos um dia vai feder.

               Agora, para tentar cobrir o rombo da estatal e agradar e manter o lucro dos seus acionistas, muitos dos quis estrangeiros, o governo atual rompeu com o passado e adotou uma política de preços atrelada à cotação do barril de petróleo no mercado internacional, mas, com as oscilações do custo do petróleo para cima, os preços dos combustíveis nacionais também se elevaram muito. Foram dezenas de aumentos em semanas, o que revoltou à população, especialmente os transportadores ao verem o ganho do frete cair em razão da subida do diesel. Para piorar, como houve uma recente elevação do valor do dólar e grande parte dos combustíveis que abastece o Brasil é importada, os preços dispararam ainda mais. Claro que o governo não poderia repetir a mesma política suicida dos governos anteriores, segurando indevidamente os preços através de um subsídio indevido, mas também não poderia permitir o que vem ocorrendo: as altas constates da gasolina e do óleo diesel, gerando um ambiente de instabilidade e afetando mais drasticamente o mercado do frete. O país é produtor de petróleo, mas não consegue refinar tudo o que consome, necessitando do mercado externo, de quem continua dependente para mover sua frota.

            Desde o ano passado, os caminhoneiros ameaçavam parar, mas o governo, fraco e omisso, fez vistas grossas. O resultado é o que estamos colhendo agora: radicalismo dos dois lados e o povo no meio do caos, sofrendo qual burro que empanca. Mas há uma coisa que é preciso dizer e talvez seja a mais importante para o consumidor entender: os combustíveis no Brasil não são caros, o que é caro são os impostos. O brasileiro paga quase 50% de tributos incidentes nos combustíveis. São impostos federais, a exemplo de Pis/Cofins/Cide, mas o principal deles é o ICMS, cobrado pelos estados, o mais elevado. Na Paraíba, exemplificando, a alíquota já era bastante alta, mas o governo estadual aumentou ainda mais esse percentual, que hoje é de 29%, mas finge não ter nada a ver com o problema.

            Além da avareza dos governos para arrecadar mais tributos a custo do sacrifício do povo, há também a esperteza de distribuidores e postos: os aumentos quando são anunciados mexem imediatamente com os preços, mas quando o governo anuncia queda, o consumidor não sente nenhuma redução nas bombas. Ganancia demais engasga, mas o pior é o que o maior entalo e entrava afeta é a goela do povo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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